6. MEDICINA E BEM-ESTAR 11.9.13

O ELO PERDIDO DO ALZHEIMER

Cientistas identificam substncia-chave para o desenvolvimento da doena. Em animais, conseguem impedir sua ao e restaurar a memria das cobaias
Cilene Pereira

Pesquisadores da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, anunciaram a realizao de mais um passo importante no combate  doena de Alzheimer, caracterizada pela perda progressiva da memria e de outras funes cerebrais. Em experincia executada em animais, os cientistas conseguiram restaurar o funcionamento do sistema de armazenamento das lembranas aps o uso de uma medicao parecida com outra j em desenvolvimento. O remdio impede a atuao de uma protena que os estudiosos acreditam ser pea-chave para o desencadeamento da enfermidade. O artigo descrevendo a faanha foi publicado na ltima edio da revista cientfica Neuron, uma das mais respeitadas da rea da neurologia.

A protena identificada pelos pesquisadores chama-se mGluR5. Ao que tudo indica, ela tem papel importante em um dos mecanismos que esto associados  morte gradual de neurnios  fenmeno caracterstico da enfermidade e que explica o aparecimento de seus sintomas. A cincia j havia constatado que um dos fatores envolvidos nesse processo  o acmulo sobre as clulas nervosas de uma protena conhecida como amiloide. Tempos atrs, o mesmo grupo de Yale responsvel pelo experimento agora divulgado descobriu que, ao se depositar sobre os neurnios, a amiloide junta-se a outro grupo de protenas (prion), tornando-se, dessa maneira, txica  os neurnios acabam perdendo a capacidade de se comunicar uns com os outros e morrem.

O que na ocasio no havia ficado esclarecido era de que maneira essa combinao, ocorrida do lado de fora do neurnio, infligia mudanas no lado de dentro das clulas nervosas, e fortes o suficiente para lev-las  morte. O estudo publicado na semana passada demonstra que a protena mGluR5  esse link. Ou seja, ela  a responsvel por fazer com que a combinao amiloide-prion efetivamente destrua os neurnios.

AVANO - Strittmatter (de marrom) e sua equipe j haviam elucidado parte do processo da enfermidade que leva  morte dos neurnios

Os cientistas foram alm da constatao do papel da substncia. Em animais, eles verificaram que a administrao de um remdio semelhante a outro que est sendo criado contra a sndrome do X-Frgil (doena gentica que compromete o desenvolvimento intelectual) bloqueia a ao da mGluR5. O resultado  que as cobaias tiveram restaurado o sistema de registro e armazenamento de informaes. Tambm foi aumentado o nmero de sinapses (ligaes entre os neurnios, por meio das quais so transmitidas as informaes). O que  muito excitante nesta pesquisa  que, de todos os links dessa cadeia molecular, esta  a protena que mais facilmente pode ser acessada por remdios, disse Stephen Strittmatter, lder do estudo. Isso nos d uma forte esperana de que poderemos achar um medicamento que ir funcionar para reduzir os prejuzos do Alzheimer.

O prprio cientista, no entanto, adota tom de cautela quando se pensa em cura da enfermidade por meio dessa estratgia. Ainda h muito mais trabalho a ser feito para explorarmos essa possibilidade, disse  ISTO. Conseguimos recuperar a memria e as sinapses em animais. Mas no sabemos se isso ocorrer em humanos, ponderou. Alm disso, o pesquisador esclareceu que a estratgia poder ser til para impedir os efeitos nocivos causados pelo acmulo de placas de amiloide sobre os neurnios, mas no reduzir o tamanho das placas. De qualquer maneira,  inegvel que a informao trazida  luz pela pesquisa do grupo de Yale adiciona mais um dado fundamental para o melhor entendimento de como se desencadeia e se desenvolve a doena.O estudo nos ajuda a entender mais sobre esses processos, afirmou Jess Smith, representante da Sociedade Britnica de Alzheimer.

Na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, cientistas apresentaram, tambm na ltima semana, outra informao a respeito da enfermidade. De acordo com trabalho coordenado por Molly Fox, existe uma associao entre o alto nvel de higiene e o aparecimento da doena. Eles chegaram  concluso aps analisarem os ndices de sade de 192 pases. Os pesquisadores verificaram que quanto menor o risco de doenas infecciosas (relacionado, por exemplo,  cobertura de saneamento bsico), maior o nmero de pacientes com Alzheimer.

Segundo o levantamento, habitantes de naes desenvolvidas, como a Inglaterra, apresentam 10% mais chances de serem vtimas da enfermidade do que os moradores de pases pobres, onde as condies de higiene so precrias. Na opinio dos estudiosos, o que explicaria a relao seria o fato de que a falta de exposio a agentes infecciosos promove um desequilbrio no sistema imunolgico. O problema desencadeia um processo inflamatrio, igual ao encontrado em portadores da doena.

